Um espaço aberto aos poetas do cotidiano. A liberdade do ato criacional e a divindade da originalidade juntas, num mesmo canto. Assim quis André Luzório Musquito, letrista, compositor e poeta, reflexo do seu mundo circunscrito. Tão singular como a arte; tão plural quão seus efeitos. A gota que faltava para transbordar o copo. Coletividade é distância. Proximidade é contato. O tato, já é uno.

18 junho, 2006

Colarinho

do livro "O Avesso de Uma Garrafa Vazia"


"Colarinho"


Não há por onde
Que se faça válido:
A pressa dos lábios
É contínua e voraz
- o tempo da sede...
Qual o gole mata,
Tal esse tempo nos toma.
Sua vontade goela abaixo entorna...
Acalmai-vos: não importa o tamanho
Da espuma no topo.
A nuvem do corpo
É sempre o restante,
Mero e doce instante
No d'ouro do mar amargo...
É o risco,
O limite da borda da bolha,
Que vai se vestindo do ar
No tênue formar de si,
E quando se faz toda,
Estoura,
Acalma.
Aí vêm os lábios secos
E atravessam rudes a casta
Perturbando o silêncio daquele movimento.
Depois se lavam famintos
Se debruçando no solo opaco,
Observando a si
Pelo conteúdo da lente
- leal e incolor continente.
Pois mal sabem eles,
Senhores do ósculo,
Que sua união mais depende
Do equilíbrio da linha
E da tortura da sede.
Pois a secura da carne
Nasce da impaciência,
Da pressa da necessidade...

Deixem a nuvem latente!
O excesso tenta o céu.
O limite se reconstrói...

Microcometas caindo pro ar
Abandonam a placenta do vidro
Marcado pelo contorno da mão
Que robou o lugar do orvalho,
Quando o suor beijou a palma…
Agora resta
Nesse imenso vazio
Um espelho sereno,
A dose perfeita:
O dedo que falta para transbordar o copo da alma…


André Luzório Musquito